- O que é morrer?
Perguntaste-me, com a ingenuidade a pairar-te no olhar...
Inesperadamente, e sem comprometimentos de maior, respondi-te:
- Morrer é ter saudades tuas...
Não adoro o passado não sou três vezes mestre não combinei nada com as furnas não é para isso que eu cá ando decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João nenhuma nenhuma palavra está completa nem mesmo em alemão que as tem tão grandes assim também eu nunca te direi o que sei a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento
Não digo como o outro: sei que não sei nada sei muito bem que soube sempre umas coisas que isso pesa que lanço os turbilhões e vejo o arco íris acreditando ser ele o agente supremo do coração do mundo vaso de liberdade expurgada do menstruo rosa viva diante dos nossos olhos Ainda longe longe essa cidade futura onde «a poesia não mais ritmará a acção porque caminhará adiante dela» Os pregadores de morte vão acabar? Os segadores do amor vão acabar? A tortura dos olhos vai acabar? Passa-me então aquele canivete porque há imenso que começar a podar passa não me olhas como se olha um bruxo detentor do milagre da verdade a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa nenhuma nada está escrito afinal
E que a força do medo que tenho...
Não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo o que acredito não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.
Que a música que oiço ao longe seja linda, ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja sempre amada mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
E a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas; como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento
Porque metade de mim é o que eu oiço
Mas a outra metade é o que eu calo.
Que essa minha vontade de ir embora se transforme na alma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro seja recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso...
E a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
Que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflicta em meu rosto um doce sorriso que me lembro de ter dado na infância
Porque metade de mim é a lembrança do que fui...
A outra metade eu não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo...
Mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta mesmo que ela não saiba,
E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer
Porque metade de mim é a plateia...
E a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é Amor...
E a outra metade...... Também!